sábado, 14 de maio de 2022

A relação familiar

 

A relação familiar


Izaias Resplandes de Sousa

Vamos falar da família. Ela é a maior e mais bela instituição. Formou-se a partir do reconhecimento de sua necessidade pelo Deus Criador, confirmado pela declaração: “Não é bom que o homem esteja só”. Gênesis 2:18.

Com certeza, as palavras divinas não se resumem à necessidade de uma mulher para o homem. A criação feminina é apenas a ponta do iceberg. A família vai além da união de um homem, uma mulher e de suas gerações anteriores e posteriores. A relação familiar é muito mais complexa do que podemos supor em nossas melhores manifestações de sabedoria. Ela pode ser tanto celestial, quanto infernal, mas sempre existirá. Não há ninguém que seja uma ilha, que não tenha “nem um passarinho para dar de beber”, que não pertença a uma família. O ser humano não foi criado para viver sozinho, mas sim, no seio de uma família, ainda que esta possa ser tanto bem estruturada quanto bem destrambelhada. O casamento não é apenas a união de dois jovens que se unem em matrimônio. É a união de muitas estruturas familiares. E, se a gente não compreender isso e não estiver disposto a se envolver nessas relações, pode ter certeza de que vamos enfrentar um zilhão de problemas pela frente. E ao invés de felicidade, teremos infelicidade e nossa vida será muito triste.

Uma relação familiar é uma via de mão dupla. Nela, ninguém é destinado a ser sempre o receptor de todas as atenções dos demais. Ela é uma troca. Aplica-se aqui o princípio da reciprocidade. Recebe atenção aquele que dá atenção. A relação não começa com o receber, mas com o dar.

Dai, e ser-vos-á dado; boa medida, recalcada, sacudida e transbordando, vos deitarão no vosso regaço; porque com a mesma medida com que medirdes também vos medirão de novo”. Lucas 6:38.

São Francisco de Assis escreveu um poema em forma de oração que traduz muito bem esse princípio bíblico. Diz assim:

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz

Onde houver ódio, que eu leve o amor

Onde houver ofensa, que eu leve o perdão

Onde houver discórdia, que eu leve união

Onde houver dúvida, que eu leve a fé

Onde houver erro, que eu leve a verdade

Onde houver desespero, que eu leve a esperança

Onde houver tristeza, que eu leve alegria

Onde houver trevas, que eu leve a luz

Ó mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado

Compreender que ser compreendido

Amar que ser amado

Pois é dando que se recebe

É perdoando que se é perdoado

E é morrendo que se vive

Para a vida eterna

Observando a maioria e ressalvando as raras exceções, eu fico pensando quanto tempo uma família permaneceria estruturada, se cada um de seus membros fosse tratado da forma com que cada um deles tratasse os demais. O que vocês acham?

Vejamos alguns casos…

Nós gostamos muito de festejar. Desde que o mundo é mundo. Gostamos de comemorar nossos aniversários de nascimento, de noivado, de casamento, de trabalho (principalmente por causa das férias), dia das mães, dia dos pais, dia de tudo e de todos. O que não nos falta são motivos para comemorar. Comemoramos, inclusive, a morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. E nessas ocasiões, nós ansiamos receber muitos e muitos cumprimentos, abraços, elogios, mensagens lindas, presentes e coisas do gênero. Eu acho justo isso. Não vejo nenhum problema em querer, em desejar, em receber. Mas, eu vejo um mas nessa história. Nem sempre gostamos de dar. Gostamos mesmo é de receber. Grande parte das pessoas de hoje não têm prazer sequer em cumprimentar os outros. Eu sou da geração “bênção, pai”, “bênção, mãe”, “bênção”, bênção e bênção. Ao deitar, ao levantar, quando sair, quando chegar. O cumprimento básico sempre foi sagrado em minha criação. E parabenizar! Gostamos de ser parabenizados, mas nem sempre de parabenizar. Hoje em dia, nós temos os grupos de família, de igreja, de trabalho. E nesses grupos, a maioria das pessoas não fala nada. Outras só falam bom dia, boa tarde e boa noite, friamente ou através de uma imagem copiada de algum lugar. Mas, ainda assim, está melhor do que aqueles mudos. Uns, tipo eu, falam demais, escrevem uns textões que ninguém quer ler. Então, começam os conflitos familiares, considerando o grupo como uma família. Ah, eu vou sair do grupo, porque nesse grupo não se fala nada de importante. É só bom dia, boa tarde e boa noite e feliz aniversário e parabéns! Mas essa é a história. Se eu fizesse aniversário todos os dias, ah! eu iria gostar de estar no grupo para receber homenagens todos os dias. Mas e essa proporção é de 364 x 1? Eu vou ter que parabenizar os outros durante 364 dias e somente vou ser parabenizado um dia? Será que é justo isso? Sim! E é bíblico! Vivendo em prol dos outros quase que o ano todo eu vou estar dando muito mais do que estarei recebendo. E, como o Senhor Jesus disse: Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber. Atos 20:35.

Se você não cumprimentar ninguém, pode ser que ninguém venha te cumprimentar. Se você não fizer festa para os outros, pode ser que você também não tenha festa. E até no velório. Se você não for no funeral dos outros, pode ser que não tenha ninguém para pegar na alça de seu caixão. A gente vê a pessoa desprezando, mas não querendo ser desprezada. E a oração? Como as pessoas gostam de pedir para a gente orar pelos problemas delas. Mas e elas, oram pelos seus problemas? Oram pelos problemas dos outros? Ou apenas querem ser como os escribas e fariseus do tempo de Jesus? O Senhor disse que essas pessoas “atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; porém, nem com seu dedo querem movê-los”, Mateus 23:4.

Você quer que orem por você? Ótimo! Isso é bom. Mas, antes de querer ser servido, sirva; antes de querer ser o primeiro, seja o último. Ore pelos outros. Se você pede orações públicas por pessoas, ore em particular por elas. Mas ore mesmo. A sua oração de fé, em seu quarto, vai valer muito mais do que essas “longas orações que devoram a casa das viúvas”, Mateus 23:14, feitas para serem vistas pelos outros, Mt 23:5. Oremos de verdade e não para manter as aparências.

Você quer que as pessoas ajudem você ou alguém de suas relações? Então comece dando o exemplo. Faça como fez o Nosso Senhor, que, em tudo, nos deu o exemplo, João 13:15. E se dê por exemplo, Tito 2:7. Encabeça a lista. Constranja os demais pelo seu exemplo. E, se não tiver resultado, entenda que talvez você não esteja sendo um exemplo eloquente. Que mais você pode fazer? De repente, pedir a intervenção do Senhor. Lembremos que a peça chave de uma relação familiar sou eu. É cada um de nós. Sou eu que tenho que fazer, que dar, que constranger com o meu exemplo. Se eu não fizer isso, a minha relação familiar já está bichada.

Então, essa é a situação. Não queremos falar, não queremos participar, não queremos dar e queremos viver bem. É preciso honrar primeiro, para quem sabe, ser honrado. Aí, você questiona: mas eu honro e mesmo assim não sou honrado. E isso talvez aconteça porque você esteja querendo negociar: dar para receber. E não é assim que deve ser. Não faça como se estivesse fazendo um negócio. Simplesmente faça. E, pode ser, que as pessoas vejam o seu exemplo. E se elas não verem, isso não é um problema. O Pai de Todos nós, dessa grande família, Deus, ele está vendo tudo. E ele saberá o que fazer na hora certa. Mas, também aqui, não fique fazendo negócios com Deus. Procure desenvolver o prazer de servir, de dar, de ser para os outros, seguindo o exemplo de Nosso Senhor, que, antes de ser para Ele, foi para nós.

Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros. De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Filipenses 2:4-8.

Não é só a sua relação familiar que está com problemas. A maioria delas também está. Mas a solução não está lá, nas relações dos outros. Está aqui, nas suas. Não olhe primeiro para lá. Olhe para você. Jesus disse: Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós. E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho?, Mateus 7:2-3.

Enquanto olharmos para lá, a solução do nosso problema, que não está lá, mas aqui, continuará pendente. Quando eu me tornar um exemplo, pode ser que os outros vejam e desejem ser como eu. Eis aí a solução para termos uma família estruturada e feliz.

Que Deus possa nos remodelar e nos fazer, de fato, novas criaturas sem os ranços do ego, do querer ser  juiz de tudo e do ser servido por todos.

O princípio que nos levará ao Céu Feliz é o da unidade, do estar juntos, do amar, do servir, do dar. Se eu consigo incorporar isso, talvez seja urgentíssimo pensar se ao invés de estar indo para a eternidade feliz eu não esteja sendo levado para o fim no lago que arde com fogo e enxofre.

Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união. É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba, a barba de Arão, e que desce à orla das suas vestes. Como o orvalho de Hermom, e como o que desce sobre os montes de Sião, porque ali o Senhor ordena a bênção e a vida para sempre. Salmos 133.

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